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TJ do Tocantins instaura processo disciplinar e afasta juiz de Augustinópolis por tempo indeterminado

O Tribunal de Justiça do Tocantins decidiu instaurar um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra o juiz Alan Ide Ribeiro da Silva, titular da 2ª Vara Criminal da comarca de Augustinópolis, no norte do estado. A decisão foi tomada nesta quinta-feira (6), durante sessão do tribunal.

Por unanimidade, os desembargadores aprovaram a abertura do processo disciplinar para apurar denúncias de desrespeito às prerrogativas de advogadas e advogados durante audiências na comarca. Já o afastamento do magistrado foi determinado por maioria de votos.

Com a decisão, o juiz fica afastado das funções por tempo indeterminado e está proibido de manter contato com o fórum de Augustinópolis ou com servidores da unidade enquanto o processo estiver em andamento. A relatoria do PAD ficará a cargo do desembargador João Rodrigues.

As reclamações envolvendo a condução de audiências pelo magistrado ganharam repercussão entre profissionais do direito da região ao longo do último ano. Advogados relataram episódios de interrupções durante perguntas da defesa, discussões em sala de audiência e situações consideradas incompatíveis com as prerrogativas da advocacia.

Para representantes da classe, a decisão do tribunal representa um passo importante na apuração das denúncias.

Segundo a advogada Cristina Magalhães, a questão envolve diretamente a garantia das prerrogativas profissionais. “A violação das nossas prerrogativas prejudica o interesse coletivo, porque atuamos na defesa de terceiros, muitas vezes em situação de vulnerabilidade. Por isso é fundamental combater qualquer tentativa de desrespeito”, afirmou.

Ela destacou que o processo disciplinar ainda terá etapas até a conclusão final, mas avalia que a decisão já representa um avanço para a advocacia da região.

“A instauração do PAD e o afastamento do magistrado mostram a força da atuação da advocacia de Augustinópolis, especialmente das advogadas, que foram as mais afetadas por essas situações. Também reforça o que estabelece a legislação: não há hierarquia entre advogados e juízes no exercício de suas funções”, completou.

O processo administrativo seguirá em tramitação no Tribunal de Justiça do Tocantins, que deverá analisar as denúncias e as provas reunidas antes de decidir sobre eventuais sanções ao magistrado.

Vídeo de audiência, denúncias de advogados e um ofício polêmico: o caso que expôs tensões no Judiciário de Augustinópolis

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Um vídeo gravado durante uma audiência no fórum de Augustinópolis, no extremo norte do Tocantins, começou a circular entre advogados da região em 2025. Nas imagens, o juiz da 2ª Vara Criminal da comarca, Alan Ide Ribeiro da Silva, discute com uma advogada e interrompe perguntas feitas durante um interrogatório.

A gravação rapidamente se espalhou em grupos de profissionais do direito e passou a ser citada em conversas dentro e fora do fórum. Para parte da advocacia local, o episódio representava um problema que, segundo eles, já vinha sendo relatado havia algum tempo: dificuldades no exercício da defesa durante audiências.

Meses depois, a situação ganhou contornos institucionais.

Advogados que atuam em Augustinópolis e também na comarca vizinha de Araguatins formalizaram uma denúncia coletiva encaminhada à Ordem dos Advogados do Brasil. O documento reunia relatos de profissionais que afirmavam ter enfrentado interrupções durante perguntas, discussões em sala de audiência e situações consideradas incompatíveis com as prerrogativas da advocacia.

A mobilização chamou atenção porque não era comum ver uma manifestação coletiva desse tipo envolvendo a atuação de um magistrado na região.

Entre os advogados que participaram das discussões, a avaliação era de que o problema não estava necessariamente nas decisões judiciais ou na condução processual dos casos, mas na forma como o diálogo entre magistrado e defesa ocorreria dentro das audiências.

O afastamento

Com a repercussão do episódio e as manifestações da advocacia, o caso passou a ser analisado administrativamente pelo Tribunal de Justiça do Tocantins.

O juiz acabou sendo afastado cautelarmente enquanto os fatos são avaliados.

O afastamento, porém, não encerrou a discussão.

Na prática, ele abriu uma nova controvérsia, desta vez dentro da própria advocacia.

O documento enviado ao tribunal

Em fevereiro de 2026, a subseção da OAB de Augustinópolis enviou um ofício ao Tribunal de Justiça do Tocantins manifestando preocupação com os efeitos do afastamento do magistrado na comarca.

No documento, a entidade afirma que, desde que assumiu a vara criminal, o juiz teria implantado uma rotina de trabalho organizada e contribuído para aumentar o ritmo de tramitação dos processos.

O texto menciona ainda a ampliação na realização de audiências e a redução do acervo processual da unidade judicial. Também pede que o tribunal avalie medidas para garantir a continuidade da prestação jurisdicional na comarca.

Reação de advogados

O envio do ofício provocou reação entre alguns profissionais da advocacia da região.

Isso porque parte dos advogados que participaram da denúncia coletiva afirmou não ter sido consultada sobre a manifestação institucional.

A situação motivou a publicação de textos e artigos críticos em grupos e redes profissionais.

Um dos posicionamentos mais extensos foi escrito pelo advogado Fábio de Alcântara, que atua há mais de duas décadas na região. No texto, ele questiona a contradição entre a mobilização coletiva anterior da advocacia e o envio do novo documento ao tribunal.

Segundo ele, a principal preocupação dos advogados nunca foi a produtividade da vara criminal, mas a relação institucional entre magistrado e defesa dentro das audiências.

Um debate sobre prerrogativas

De um lado, advogados reconhecem que a vara criminal passou a registrar maior volume de audiências e decisões nos últimos anos.

De outro, profissionais da defesa afirmam que eficiência processual não pode ocorrer à custa de limitações ao exercício da advocacia.

Abuso de autoridade e violência de gênero: OAB-TO leva ao Conselho Federal denúncias contra juiz de Augustinópolis

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Após um mês de apuração minuciosa, a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Tocantins (OAB-TO) aprovou, nesta sexta-feira (30), o envio ao Conselho Federal da OAB do relatório final que aponta violações graves cometidas pelo juiz Alan Ide Ribeiro da Silva, da 2ª Vara Criminal da Comarca de Augustinópolis. O documento pede providências conjuntas diante das denúncias de condutas autoritárias, desrespeito às prerrogativas da advocacia e, principalmente, práticas reiteradas de violência institucional de gênero contra advogadas.

A decisão foi tomada após apresentação do relatório da Comissão Especial de Prerrogativas da OAB-TO, instituída exclusivamente para apurar a conduta do magistrado. O presidente da Comissão Nacional de Prerrogativas da OAB, Pedro Paulo Medeiros, acompanhou a sessão e reforçou o compromisso nacional com o caso. “Se não agirmos em Augustinópolis, essa prática pode se alastrar por todo o Tocantins e pelo país. O Conselho Federal está à disposição da advocacia tocantinense”, declarou.

Segundo o relatório, os depoimentos e provas colhidas mostram um padrão de comportamento marcado pelo autoritarismo, desrespeito e intimidação, criando um ambiente hostil à atuação da advocacia. “A situação compromete a administração da justiça e atinge diretamente os direitos dos jurisdicionados”, aponta o documento.

A procuradora-geral de Prerrogativas da OABTO e presidente da Comissão Especial, Aurideia Loiola Dallacqua, chamou atenção para a gravidade dos relatos envolvendo advogadas. “Foram gritos, silenciamentos e desrespeito à palavra. Não é apenas abuso de autoridade, é violência institucional de gênero. Por isso, o relatório segue para o Conselho Federal e, por meio do Sistema Nacional de Prerrogativas, adotaremos todas as medidas cabíveis”, afirmou.

Para a vice-presidente da OAB-TO, Larissa Rosenda, o encaminhamento do relatório marca um momento histórico para a advocacia no estado. “É um gesto firme de valorização da advocacia e, sobretudo, de respeito à mulher advogada, que não pode mais ser silenciada ou constrangida em seu exercício profissional”, declarou.

Comissão ouviu dezenas de relatos

Durante os 30 dias de atuação, a Comissão Especial ouviu diversos profissionais que atuaram em processos sob a jurisdição do juiz Alan Ide. Participaram do colegiado, além de Aurideia Dallacqua, a presidente da Comissão da Mulher Advogada, Débora Cardoso Mesquita, os conselheiros estaduais Ana Carla Alves Coelho, Elion Carvalho Júnior, Eslany Alves Gonçalves, Kattyane Moreira de Sá, Samuel da Silva Rocha e Warlison Felício de Araújo.

A expectativa é de que o Conselho Federal da OAB encaminhe o caso ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), cobrando as devidas providências diante das denúncias que, segundo a Ordem, comprometem os princípios da legalidade, do respeito à advocacia e da igualdade de gênero no exercício profissional.

Foto: OAB.org.br